terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Um novo tempo de “Cavacadas” e “Cavaquices”

Sou profundamente critico sobre a figura de Cavaco Silva. Nem sempre foi assim, mas como sabem; só os burros não mudam...

Numa primeira fase Cavaco foi um ministro das finanças “apagado” no governo liderado por Francisco Sá Carneiro. Não deu nas vistas e funcionou como um relógio ômega que nem adianta nem atrasa, mas faz cumprir religiosamente a tempo e horas as ordens que recebe do chefe.
Conta ele que chegou a Figueira da Foz para fazer a rodagem de um carro, e acaba por sair como líder do Partido Social Democrata, imposto por uma certa nomenclatura que achou nele a figura certa para dar a cara as suas pretensões de conquista do poder e ampliação de objetivos pessoais.
Como líder da oposição chega a primeiro ministro, mesmo que em minoria, e faz bem o seu papel, apoiado numa equipa de grande qualidade que sem macula consegue autênticos milagres para a época que se vivia em Portugal.
Em 1987 parte em desvantagem para as eleições legislativas e acaba por conquistar uma inesperada maioria absoluta.
De 1987 até 1991 conduz Portugal de uma forma superior, e até a oposição se teve que render a sua boa gestão. Não se vislumbravam sombras de corrupção ou outras maculas na governação.
Em 1991 Cavaco reconquista e amplia a maioria absoluta e inicia então um ciclo de erros e lacunas, apoiado num autentico bando de “salteadores” que instalados nos mais variados postos da governação não olharam a meios para atingir fins...
Em 1995 olhando para as poucas possibilidades de se reeleger, decide retirar-se, e começa a sonhar com uma candidatura presidencial como forma e conteúdo para se chegar novamente a linha do poder.
Avança mesmo nesse desiderato e naturalmente é derrotado, porque os Portugueses apesar de uma memoria curta, não a tem assim tão curta.
A memoria é realmente uma condição indispensável para o desenvolvimento da nossa vida e também para a própria vida politica. A comunicação social portuguesa enferma de um grave problema de falta de memoria e capacidade de não deixar morrer as importantes realidades do passado.
Não podia deixar de recordar uma dúzia de factos que fizeram da trajetória de Cavaco Silva a aberração que hoje se pode confirmar ser enquanto politico e gestor. Infelizmente sei que mesmo recordando tudo isso a sua caminhada para voltar a entrar no palácio de Belém é imparável face a qualidade paupérrima dos adversários em presença.
Irei começar pelo fim da história, falando no imbróglio BPN em que Cavaco se deixou envolver de livre e espontânea vontade para arrecadar uns lucros extra, obtidos de um modo ardiloso.
Com a descoberta da marosca, e o potenciar de noticias e divulgação de factos, caberia a criatura ter descido a terra para esclarecer a situação, mas tal não aconteceu, antes pelo contrário, ficou mudo e calado deixando rolar as noticias sobre o contexto da obtenção de 140% de lucros em apenas 2 anos. Coisa espantosa de acontecer, e que nem um economista que se farta de gabar de seriedade, experiência, e conhecimento profundo dos mercados nem sequer estranhou...
No ciclo da noticia surge como um dos mais implicados no escândalo BPN, o seu ajudante de campo de anos e anos, ex-secretário-geral do PSD, Manuel Dias Loureiro, que é defendido com unhas e dentes até ao limite do insustentável. Só deixa cair Dias Loureiro do Conselho de Estado quando toma conhecimento off que o semanário Expresso iria divulgar novas noticias, incluindo os lucros espantosos das suas acções não cotadas em bolsa referentes a SLN, empresa que dominava o BPN.
Qualquer cidadão português necessitaria de ser parido duas vezes para obter níveis de lucro iguais aos que Cavaco e sua filha obtiveram com as acções da SLN; agora, pelo contrário, todos os portugueses necessitam de trabalhar por dois para poder pagar os impostos que estão a tapar o imenso buraco criado por essas espantosas mais valias que bafejaram Cavaco Silva e os seus muchachos...
Existem imagens tão lamentáveis, que não saem da nossa cabeça por muito que surjam factos que tentem apagar os seus efeitos acumulados. Uma dessas lamentáveis imagens é referente a Março de 2002, quando Cavaco Silva fez a tristemente celebre declaração acerca dos funcionários públicos:
“Como é que nos vemos livres deles? Reformá-los não resolve o problema, porque deixam de descontar para a Caixa Geral de Aposentações e, portanto, diminui também a receita do IRS. Só resta esperar que acabem por morrer”.
Considerar os funcionários públicos que colocaram a sua maquina estatal a funcionar como meros dejetos não foi triste, foi mais do que isso uma vergonha em termos de credibilidade para quem faz afirmações desse cariz.
No meu caso particular, e entre outras “bacuradas” levadas a efeito nos últimos anos de governação, não sai da minha memoria a celebre declaração que deixou cair Fernando Nogueira, nos finais da campanha eleitoral do PSD em 1995. Posteriormente surgiram as noticias nunca desmentidas sobre as suas recusas em aparecer nos cartazes de campanha ao lado de ex-líderes do PSD em 2005. Já anteriormente, num acto de profunda falta de solidariedade politica, recusou pagar as despesas de campanha de Freitas do Amaral, após a segunda volta das presidências de 1986.
A falta de solidariedade institucional tem sido uma das principais características da caminha politica de Cavaco, que apenas tem solidariedade com os seus boys.
Mais recentemente o processo das escutas, que num país dito normal, exigiria um inquérito com cabeça, tronco e membros, para se apurar se foi cometido algum tipo de crime de responsabilidade de titulares de cargos públicos, baseado na lei que prevê varias hipóteses, nomeadamente atentado contra o Estado de Direito, coacção contra órgãos constitucionais, prevaricação, abuso de poderes, violação de segredo de estado.
Sobre isto vale a pena ouvir um depoimento efectuado por Sarsfield de Cabral na altura na SIC Notícias – que, além de apoiante de muitos anos, tal como eu já trabalhou directamente com Cavaco – onde afirmou que, na sua opinião, conhecendo bem Fernando Lima, este nunca faria nada sem orientações do Presidente.
Eu subscrevo na integra tais afirmações pois conheço Fernando Lima, e sei o quanto se pode contar com o seu posicionamento, além de estar acima de qualquer suspeita por posicionamentos do tipo em questão. Um autentico embaixador com superior sentido de Estado!
As minhas primeiras criticas publicas e frontais a gestão de Cavaco Silva remontam aos tempos da forma lamentável como foi lançada e gerida, nos Governos de cavaco Silva, a primeira Parceria Público Privado da Ponte Vasco da Gama.
Se mesmo assim alguém tiver duvidas acerca do assunto, pois então  leiam o livro ou ouçam as declarações do Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas Carlos Moreno, processo que esteve na origem, aliás, do famoso bloqueio da Ponte 25 de Abril (os novos preços impostos na Ponte 25 de Abril resultavam do acordo de concessão; como os preços na Ponte 25 de Abril foram depois revistos em baixa, a Lusoponte teve que ser largamente compensada – a decisão foi anunciada pelo Ministro Ferreira do Amaral que, uns tempos mais tarde, passou a presidir à… Lusoponte), e que vendeu por entrepostas pessoas terrenos pertencentes a sua família localizados no local de implantação da amarração da Ponte.
Não esquecer que foi o próprio Cavaco Silva quem acabou por empurrar Ferreira do Amaral para uma sinistra campanha eleitoral, perdida antes mesmo de se iniciar, mas que tinha como objetivo ocupar o espaço politico.
Já a pulga na orelha me tinha ficado, graças ao brutal buraco financeiro e a forma absolutamente inqualificável como foi conduzido pelos Governos de Cavaco Silva o processo de modernização da linha de caminho de ferro do Norte (várias centenas de milhões de contos – repito centenas de milhões de contos – com deslizamentos orçamentais e temporais impensáveis, para ganhos nulos nos tempos de percurso), originando um brutal desperdício de recursos públicos.
Os vultosos prêmios contratuais atribuído pelos Governos de Cavaco Silva a empreiteiros adjudicatários de obras publicas para que estrategicamente as obras fossem concluídas em timings compatíveis com o caderno eleitoral das eleições legislativas, aliados a manifestos apoios de verbas mais do que interessantes para apoiar a própria campanha eleitoral.
Não se pode vir condenar Socrates, quando ele teve como exemplo aulas de um autentico professor em gestão de tempos e espaços, e também de formas de comandar a maquina politica de modo ardiloso.
Mas não é só Cavaco que brilha em toda esta sumula, pois não me esqueci da entrevista ao Expresso de Miguel Cadilhe, Ministro das Finanças do primeiro Governo de Cavaco Silva, onde ele afirmava peremptoriamente que Cavaco foi o pai do “monstro” pelas implicações que teve o regime remuneratório da função pública (e sobretudo as múltiplas excepções criadas – fazendo praticamente com que, de facto, a excepção seja o regime… normal) aprovado pouco antes das legislativas de 1991…
Recordo, também, o processo de negociação com os parceiros sociais dos aumentos salariais em 1991 (ano de eleições, pois claro) em que, tanto quanto me recordo, o Governo de Cavaco Silva propôs aumentos superiores aos propostos pela delegação da própria … CGTP… e que deu direito a brinde com champanhe e larga publicitação.
Não posso esquecer de forma alguma a forma mais do que caótica como foram geridos os fundos estruturais – em particular o FSE e o FEOGA – nos Governos de Cavaco Silva. Sobre o FSE há notícias várias e processos diversos no Tribunal. No Feoga, há certamente noticias e imagens, por exemplo, da visita com pompa e circunstância, de Cavaco à Odefruta, bem como aos seus elogios estusiásticos ao projecto protótipo de sucesso do milionário francês Thierry Roussel – projecto que permitiu a este último deitar a mão a um milhão de contos – 5 milhões de euros! – em fundos comunitários e ajudas do Estado português e “dar às de Vila Diogo” cerca de um ano depois…
Não bastava chamar a atenção sobre alegadas corrupções, como a denuncia que fiz acerca de manifestas fraudes cometidas na Casa dos Rapazes no Barreiro, e que foi empacotada, pois só quando colocado perante os factos e mesmo assim só quando devidamente publicitados, é que tomava medidas de fundo.
Por falar em teimosia e alegados racios sobre o seu mítico rigor e competência recordo aqui também o famigerado “coeficiente de erro de Braga” de Macedo (assim baptizado por Paulo Portas, sim, esse mesmo, então Director do Independente devido ao nome do Ministro das Finanças, Braga de Macedo, repito; sim, esse mesmo), quando no fim de 1993 o Governo de Cavaco Silva atingiu um défice público elevadíssimo, cerca de três vezes superior ao que tinha estimado no inicio do ano (uma das principais razões desse catastrófico lapso de previsão terá sido provocado pela decisão da então Senhora Secretária de Estado do Orçamento – essa mesma, a também muito competente e rigorosa Manuela Ferreira Leite – de despedir contratados da DGCI, o que, associado a alterações legais, teve como brilhante resultado que nesse ano e a partir desse momento o Estado praticamente deixou de arrecadar o IVA).
Foram personalidades como Braga de Macedo e Manuela Ferreira Leite, conjuntamente com outras figuras, que fizeram a imagem de degradação final da governação de Cavaco Silva. Manuela Ferreira Leite tem a seu favor a recente leitura correta da situação nacional, mas tal como na velha historia do lobo... tantas vezes disse que vinha lobo, sem ele vir, que quando o lobo apareceu já ninguém acreditos...
É interessante recordar também alguns factos menos noticiados como o da proposta de demissão de Cavaco Silva da Universidade, efectuada pelo Conselho de Reitores em 1985, por ter-se ausentado do serviço docente que lhe fora atribuído. Esta proposta não terá ido para a frente porque Deus Pinheiro, na altura ministro da Educação do Bloco Central, segundo essas notícias, lhe teria concedido licença sem vencimento sem que para isso tivesse qualquer competência.
Os favores são assim pagos a seu tempo, e a presença de Deus Pinheiro tanto no Governo como em cargos de elevado destaque politico, tem merecido a eterna gratidão da nomenclatura cavaquista.
A falta de transparência e casuísmo que terão marcado os processos de privatizações e negociações de aquisições de bancos e seguradoras como foram exemplo a Tranquilidade ou do Totta / Banesto?, ou sobre a forma atabalhoada e pouco rigorosa como foi lançada e realizada nos Governos de Cavaco Silva a criação das universidades privadas sob a soberania, em regra geral, sem a mínima garantia ou exigência de qualidade do ensino, o que veio a anos mais tarde dar os resultados que todos sabemos, e de que o próprio Socrates é um dos mais tristes exemplos.
Iniciei esta resenha falando da falta de transparência da comunicação social, e por isso recordo também o Ministro do Governo de Cavaco que, segundo notícias da altura, combinava com o Director de Programas o alinhamento dos telejornais da RTP – pois, esses mesmos que agora rasgam as vestes pela asfixia democrática – o Marques Mendes e o José Eduardo Moniz.
Como esquecer também as notícias sobre o processo de atribuição de licenças de rádios e televisões nos Governos de Cavaco Silva – e que fez com que parte relevante da comunicação social privada tenha, então (alguns desde então), ficado sob a dependência de grupos económicos mais ou menos sintonizados com os Governos de Cavaco Silva. Alguém já se esqueceu do afastamento mais do que estranho da “incómoda” TSF das licenças nacionais?.
Cavaco Silva, o tal homem providencial, um poço de virtudes, que raramente tem dúvidas e nunca se engana… Enfim, só a “suave” imprensa nacional não vê ou não quer ver que… Cavaco rima com… buraco…
No próximo dia 23 de Janeiro, os portugueses vão escolher entre candidatos muito parecidos, embora alguns tenham participado ativamente na degradação nacional, e outros tenham aproveitado as situações que lhe foram surgindo para se alcandorar a objetivos pessoais. Por exemplo; alguém sabe o quanto a organização criada pelo candidato Fernando Nobre soube sugar ao longo dos anos de entidades publicas... Possa ser que Mario Soares saiba responder por algumas verbas... Sampaio por outras... e até Cavaco Silva ajudou a dar imagem a plantaforma de lançamento de uma campanha pessoal lançada com a devida antecedência.
Manuel Alegre é um produto das maiores máfias que se movem no interior da maçonaria... dos outros nem vale a pena se falar pois de verbos de encher não passam...
Os portugueses vao ter mais um mandato de cavacadas e cavaquices pela frente, mas como tem sido eles a escolher esse rumo ao longo dos anos, o que se pode dizer, se não apenas que cada um tem aquilo que merece.

“João Massapina”  

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O triunfal regresso do provador oficial de bolo rei

É por estas e outras que eu quando olho para alguns (todos) dos candidatos presidências me dá uma certa azia estomacal misturada com uma imensa vontade de defecar sobre eles próprios, que nem sei como tenho conseguido conter esses dois desideratos...

Surge diariamente na minha cabeça a singela pergunta do porque de em Portugal ninguém questionar o triste facto de os verdadeiros corruptos estarem cada vez mais instalados nos lugares determinantes das decisões do poder politico, social e econômico. Ao mesmo tempo me questiono sobre o estranho facto de os cidadãos decentes andarem a trabalhar continuamente para manter o poder nas mãos dessa “turma” e contribuírem sem limites para encher a pança dessa gente¬... hipotecando a cada dia que passa o seu futuro.
Penso eu de que; na realidade a sociedade portuguesa já entrou num ritmo tal de fait-divers que não liga a nada do que passa ao seu lado em termos de acontecimento digno de registo.
Aquilo que antes era caraterizado por leitura de “sopeira” é afinal hoje a leitura preferida do cidadão com um claro objetivo, tendo em vista a alienação individual da mente para com o mundo real, e a criação de uma imagem ficcional que possibilite passar ao lado dos assuntos que afetam o seu dia a dia, nomeadamente a crescente corrupção nas mais altas esferas, a baixa qualidade de vida, a crescente criminalidade da sociedade, o desemprego crescente, a insegurança laboral, a falência do estado social, uma economia nacional em queda livre, um País tecnicamente falido, uma Europa sem rumo definido exceto para as grandes potencias do tipo Alemanha, França, e mais um numero cada vez mais crescente de questões que deveriam ser os temas de debate na sociedade, mas que afinal passam ao lado dos cidadãos por via da sua clara opção em se distanciar dos problemas deixando as decisões a uma meia dúzia de sumidades.
No próximo dia 23 de Janeiro; Portugal vai ter mais uma eleição presidencial, e nem assim a discussão sobre a qualidade dos candidatos e das suas propostas tem merecido a atenção dos cidadãos. Mas tenho que dar razão a alienação generalizada dos cidadãos, pois nenhum dos candidatos apresenta proposta alguma que mude o ritmo da vida diária e possa criar algumas expetativas de uma nova sociedade e de um mundo nacional melhor. Da mesma forma que ninguém apresenta uma sensibilidade necessária e suficiente para questionar de forma frontal na praça publica tanto a incapacidade programática dos candidatos ou sequer um presidente que se recandidata com uma imagem de santidade quando na verdade face aos seus antecedentes deveria ser fortemente questionado acerca da sua postura e responsabilidades na degradante situação econômica nacional, educacional e social a que Portugal chegou neste ano de 2011.
Pior do que não questionar as responsabilidades de muitos anos de governação de Cavaco Silva, é não questionar situações que num qualquer outro País seriam vistas com claros indícios de corrupção passiva e ativa. Um dos candidatos eleitorais (Manuel Alegre) lançou farpas, mas não tem passado de autentica alcoviteira, sem questionar realmente as razões de determinados acontecimentos.
Falo obviamente, entre outros fatos, da muito estranha movimentação, em 2001, por parte de Anibal Cavaco Silva, Presidente da Republica em exercício, e recandidato ao lugar, e de sua filha, de nada mais, nada menos; adquirirem em conjunto 255.018 ações da SLN grupo detentor do Banco Português de Negócios de muito má memoria para a economia nacional, e para a bolsa de cada um dos portugueses que anda a pagar o buraco (cratera) deixado pela entidade...
Qualquer cidadão quando adquire ações tem que declarar a sua aquisição, e qualquer cidadão que omite esse tipo de aquisição fica sujeito as penalidades previstas por lei. (Qualquer um, menos Cavaco Silva...) Da mesma forma um qual quer cidadão que renega a aquisição deste tipo de instrumento econômico, e vem a ser desmascarado por comprovada mentira, fica debaixo da alçada tanto da lei como da opinião publica. Mas com Cavaco Silva (quase) tudo isso passou ao lado...
Ironicamente Cavaco Silva fez declaração publica de que nunca tinha adquirido nada ao BPN, esquecendo que a SLN era a maquina desse mesmo banco, e que tinha adquirido um bom lote de ações a essa entidade. Esquecimentos destes, nem o magnifico queijo Limiano provoca!
Mas como as ações da SLN nem eram transacionadas na Bolsa de Valores, afinal a quem terá Cavaco Silva e a sua extremosa filha terão adquirido as benditas ações, que mais tarde venderam com ganhos elevados se não mesmo a alguém muito próximo, assim tipo Dias Loureiro (agora empresário nas áfricas) ou mesmo a Oliveira e Costa (agora doentinho compulsivo...), que prepararam no tempo a manobra com todo o cuidado, vendendo as ações a Cavaco por um valor de 1 (um) euro, e mais tarde as readquirindo ao mesmo Cavaco Silva e a sua filha com 1,40 (um euro e quarenta cêntimos) de mais valia por cada ação, proporcionando um ganho sem igual aos seus amigos (Cavaco Silva e filha), para um papel que nem cotação tinha na Bolsa.
Será que essas mais valias chegaram a ser declaradas ao fisco nacional, atendendo a que o papel não corria na Bolsa de Valores e toda a operação foi realizada por debaixo da mesa num prazo de 2 anos (2001 – 2003), na maior e mais completa nevoa que se possa considerar possível de existir numa sociedade dita transparente...
Valorização de mais de 140% (comprado a 1 euro em 2001, e vendido em 2003 a 2,40 euros) de um papel sem cotação na Bolsa de Valores e ainda por cima de uma empresa que inclusivamente andava a ser largamente questionada pelo Banco de Portugal, é um acontecimento digno de figurar ao lado de milagres econômicos como a Dona Branca, ou como o milagre comercial da Senhora de Fátima ou mesmo da Senhora da Ladeira...
Até agora ninguém questionou devidamente toda uma operação que, volto a repetir, em qualquer outro País do mundo dito civilizado mereceria um trabalho de investigação por parte das autoridades competentes, pois o assunto cheira demasiado a esturro para se passar ao lado sem sequer verificar o que se encontra dentro da panela. No entanto; nem as entidades competentes nem o próprio cidadão comum questionaram o assunto, deixando o mesmo no mais completo silencio.
É por estas e outras que eu quando olho para alguns (todos) dos candidatos presidências me dá uma certa azia estomacal misturada com uma imensa vontade de defecar sobre eles próprios, que nem sei como tenho conseguido conter esses dois desideratos...
Olho para o cidadão Manuel Alegre e apenas consigo ver um refratário militar que ajudou forças terroristas a abater soldados nacionais que eram obrigados a vestir uma farda e pegar em armas sob pena de fortes penalizações num momento próprio da historia nacional. Uma criatura dessas não merece absolutamente nenhum respeito em termos eleitorais pois a sua vida fica muito longe daquilo que se entende por decência em termos de cidadania. Só o respeito culturalmente enquanto poeta, pois como cidadão elegível deixa muito a desejar, e não se pode confiar em quem não tem respeito nem por si próprio.
Olho para o cidadão Fernando Nobre e vejo alguém que andou a pregar anos e anos a defesa da moralidade e bons costumes, apoiada numa entidade – AMI – que acabou por lhe servir de trampolim para lançar objetivos meramente pessoais. Embora todo o cidadão no pleno gozo dos seus direitos de cidadania possa ser candidato, desde que cumpra as formalidades em termos de idade e não tenha impedimentos legais, acho eu que existem cidadãos que pelo seu percurso pessoal deveriam cuidar da manutenção da sua imagem num patamar elevado. Com a sua candidatura perde todo o estatuto de cidadão acima de certas questões inferiores da sociedade, como o é uma eleição deste tipo, sem apresentar propostas concretas.
O candidato Francisco Lopes, surge nesta campanha para fazer a habitual figura de “patinho” feio vestido de vermelho com uma foice e um martelo desenhados na testa. Uma candidatura de contestação por um lado e de garante da manutenção de eleitorado por outro Desde 1974 que o PCP utiliza sempre a mesma estratégia, lançando candidatos para encher chouriços, e sempre com os mesmos resultados de perda de votos, mas sempre sem propostas minimamente credíveis para apresentar.
Os outros candidatos em presença surgem para fazer figura de corpo presente na fotografia da historia que algum dia falara de que em 2011 as presidenciais tiveram como candidatos fulano e sicrano. Não tem a mais remota esperança de ser sufragados com capacidade de mover os dígitos eleitorais, e só querem surgir na foto, o que poderiam também conseguir se fossem as 13 horas de um qualquer dia de semana, para cima de uma arvore da Avenida 5 de Outubro, para salvar um gato...
Resta o principio do fim, que se chama Anibal Cavaco Silva, e que se apresenta para ser reeleito com base em mais uma mandato do mesmo teor do primeiro... um mandato de primado do chamado corta-fitas. Uma candidatura com alicerces em anos e anos de poder executivo, e muitas duvidas acerca da sua cotação em termos de cidadão impoluto, de que o assunto SLN versus BPN é só uma ponta do rastilho da imensa bomba em que se transformou a criatura que um dia veio ao mundo lá para os lados de Boliqueime.
Obviamente que vocês me vão questionar sobre quem afinal eu apresentaria para se candidatar com programa, com capacidade de ser algo diferente para a sociedade, uma vez que os candidatos em presença são autênticos clones...
A resposta é muito simples... cabe a sociedade portuguesa acordar em termos sociais e políticos e “matar” a realidade atual criando uma nova sociedade em termos políticos e sociais, mostrando que todos podem ganhar com novas propostas sem que as mesmas tenham que ter saída da sombra dos partidos políticos, e livres dos compromissos das negociatas da navegação a vista que hoje são os atributos da realidade politica.
Onde andara afinal a sociedade civil portuguesa, que deveria sair a rua e se manifestar, e ao mesmo tempo lançar novas propostas e novas figuras. Desde 1974 que temos perante os nossos olhos, sempre, as mesmas criaturas a determinar a politica e o rumo da sociedade. A rentabilidade bruta dessa gente em termos de gestão, esta baseada na enxurrada de erros continuamente repetidos que acabou por conduzir Portugal a banca rota em que se encontra hoje.
Os portugueses entraram numa espiral de alienação de que jamais vão conseguir sair. Acreditam nas oportunidades da propaganda enganosa, e nas figuras que continuadamente lhes colocam a frente dos olhos.
Portugal, enquanto País já não existe, esta hipotecado na infindável divida externa, (China, Brasil, Angola, India, EUA, e mais uns quantos compraram Portugal aos lotes...) mas praticamente ainda ninguém se apercebeu de que a gestão das migalhas que ainda vão caindo das mesas estão a ser devoradas por um reduzido grupo de personalidades que engajadas nos partidos políticos vão jogando em função dos seus interesses pessoais. Os restantes 10 milhões servem para pagar impostos e irem periodicamente, de modo eleitoral, dando credibilidade ao saque nacional. Das migalhas devoradas pela minoria recebem o pó da farinha...
Decidi que no dia 23 entre poder votar no “bolo rei”, na “bolacha de agua e sal”, no “doutorzinho da tapitanga”, no “poeta pateta”, ou no “inocente da tasquinha da esquina” irei afinal votar no emplastro, pois assim como assim a alienação cada vez mais é lei!!!

João Massapina

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Via-crúcis dos travestis


Todo ser humano é um quebra-cabeça composto por muitas peças, cujo cotidiano de milhares de pessoas que circulam pela cidade expõe suas incertezas, alegrias, dúvidas, paixões, dramas e esperanças.  Nesses pedaços custam a se encaixar quando se trata dos travestis.
            Não vou me meter em filosofias, ou melhor, em filosofadas, pois não podemos nos calar frente a este comportamento raivoso e de segregação. Ora, se fosse possível juntar os preconceitos manifestados contra negros, índios, pobres, homossexuais, garotos de programa, mendigos, gordos, anões, judeus, muçulmanos, orientais e outras minorias, mesmo assim, estaria longe, muito longe, comparar o desprezo rancoroso que a sociedade impõe aos travestis.
            Essa mentalidade tacanha, miúda e discriminatória que até então assola parte de nossa sociedade só nos mostra o quão distante estamos da real democracia. Aí está: é um menoscabo à Justiça, haja vista que a nossa Constituição impede o cerceamento, a discriminação e a violação dos direitos, independentemente de seu estilo ou opção sexual.
            Pisoteado pelo preconceito, poucos conseguem concluir os estudos elementares. Se para os mais ricos com diploma universitários não é fácil, imagine para eles. Realidade crua, sem artifícios, o máximo que conseguem é lugar de cozinheiro em botequim, varredor de salão de beleza na periferia ou atividade semelhante sem carteira assinada.
            A seu favor (sabe-se lá a que preço) ainda consegue alguns trocados fazendo programas sexuais, mostrando-se bastante feminino (através de hormônio), maquiagem para esconder a barba, uma saia mínima com bustiê, sapato alto e um rebolado acrobático que só eles sabem.
            Para ficarem “nos trinques”, muitos injetam silicone na face, nas nádegas, nas coxas, mas sem dinheiro para adquirir o de uso médio, fazem-no com silicone industrial comprado em casa de materiais de construção, injetado por pessoas despreparadas, sem qualquer cuidado de higiene. Com o tempo, as conseqüências são nefastas, dando origem à inflamações dolorosas, desfiguradas, difíceis de debelar.
            Escarafunchando os meus arquivos, li um artigo do médico Drauzio Varella, como sempre lúcido e coerente em suas afirmações, diz, entre outras considerações, que os hospitais públicos deveriam ser obrigados a criar pelo menos um posto de atendimento especializado com diagnósticos médicos mais comuns entre os travestis: complicação de hormônios femininos e silicone industrial, prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis.
            Será que já não é hora (tarde) de se discutir esse problema absolutamente vergonhoso de anacronismo puro e nocivo?  Não, mil vezes não, podemos continuar dando as costas para essa minoria de homens, só porque eles decidiram adotar a identidade feminina, direito de qualquer um.


                                                          LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                    (lincolnconsultoria@hotmail.com)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

'Devem-nos_dinheiro''

José Sócrates em 2001 prometeu que não ia aumentar os impostos. E aumentou. Deve-me dinheiro. António Mexia da EDP comprou uma sinecura para Manuel Pinho em Nova Iorque. Deve-me o dinheiro da sinecura de Pinho. E dos três milhões de bónus que recebeu. E da taxa da RTP na conta da luz. Deve-me a mim e a Francisco C. que perdeu este mês um dos quatro empregos de uma loja de ferragens na Ajuda onde eu ia e que fechou. E perderam-se quatro empregos. Por causa dos bónus de Mexia. E da sinecura de Pinho. E das taxas da RTP. Aníbal Cavaco Silva e a família devem-me dinheiro. Pelas acções da SLN que tiveram um lucro pago pelo BPN de 147,5 %. Num ano. Manuel Dias Loureiro deve-me dinheiro. Porque comprou por milhões coisas que desapareceram na SLN e o BPN pagou depois. E eu pago pelo BPN agora. Logo, eu pago as compras de Dias Loureiro. E pago pelos 147,5 das acções dos Silva. Cavaco Silva deve-me muito dinheiro. Por ter acabado com a minha frota pesqueira em Peniche e Sesimbra e Lagos e Tavira e Viana do Castelo. Antes, à noite, viam-se milhares de luzes de traineiras. Agora, no escuro, eu como a Pescanova que chega de Vigo. Por isso Cavaco deve-me mais robalos do que Godinho alguma vez deu a Vara. Deve-me por ter vendido a ponte que Salazar me deixou e que eu agora pago à Mota Engil. António Guterres deve-me dinheiro porque vendeu a EDP. E agora a EDP compra cursos em Nova Iorque para Manuel Pinho. E cobra a electricidade mais cara da Europa. Porque inclui a taxa da RTP para os ordenados e bónus da RTP. E para o bónus de Mexia. A PT deve-me dinheiro. Porque não paga impostos sobre tudo o que ganha. E eu pago. Eu e a D. Isabel que vive na Cova da Moura e limpa três escritórios pelo mínimo dos ordenados. E paga Impostos sobre tudo o que ganha. E ficou sem abonos de família. E a PT não paga os impostos que deve e tenta comprar a estação de TV que diz mal do Primeiro-ministro. Rui Pedro Soares da PT deve-me o dinheiro que usou para pagar a Figo o ménage com Sócrates nas eleições. E o que gastou a comprar a TVI. Mário Lino deve-me pelos lixos e robalos de Godinho. E pelo que pagou pelos estudos de aeroportos onde não se vai voar. E de comboios em que não se vai andar. E pelas pontes que projectou e que nunca ligarão nada. Teixeira dos Santos deve-me dinheiro porque em 2008 me disse que as contas do Estado estavam sãs. E estavam doentes. Muito. E não há cura para as contas deste Estado. Os jornalistas que têm casas da Câmara devem-me o dinheiro das rendas. E os arquitectos também. E os médicos e todos aqueles que deviam pagar rendas e prestações e vivem em casas da Câmara, devem-me dinheiro. Os que construíram dez estádios de futebol devem-me o custo de dez estádios de futebol. Os que não trabalham porque não querem e recebem subsídios porque querem, devem-me dinheiro. Devem-me tanto como os que não pagam renda de casa e deviam pagar. Jornalistas, médicos, economistas, advogados e arquitectos deviam ter vergonha na cara e pagar rendas de casa. Porque o resto do país paga. E eles não pagam. E não têm vergonha de me dever dinheiro. Nem eles nem Pedro Silva Pereira que deve dinheiro à natureza pela alteração da Zona de Protecção Especial de Alcochete. Porque o Freeport foi feito à custa de robalos e matou flamingos. E agora para pagar o que devem aos flamingos e ao país vão vendendo Portugal aos chineses. Mas eles não nos dão robalos suficientes apesar de nos termos esquecido de Tien Amen e da Birmânia e do Prémio Nobel e do Google censurado. Apesar de censurarmos, também, a manifestação da Amnistia, não nos dão robalos. Ensinam-nos a pescar dando-nos dinheiro a conta gotas para ir a uma loja chinesa comprar canas de pesca e isco de plástico e tentar a sorte com tainhas. À borda do Tejo. Mas pesca-se pouca tainha porque o Tejo vem sujo. De Alcochete. Por isso devem-me dinheiro. A mim e aos 600 mil que ficaram desempregados e aos 600 mil que ainda vão ficar sem trabalho. E à D. Isabel que vai a esta hora da noite ou do dia na limpeza de mais um escritório. Normalmente limpa três. E duas vezes por semana vai ao Banco Alimentar. E se está perto vai a um refeitório das Misericórdias. À Sexta come muito. Porque Sábado e Domingo estão fechados. E quando está doente vai para o centro de saúde às 4 da manhã. E limpa menos um escritório. E nessa altura ganha menos que o ordenado mínimo. Por isso devem-nos muito dinheiro. E não adianta contratar o Cobrador do Fraque. Eles não têm vergonha nenhuma. Vai ser preciso mais para pagarem. Muito mais. Já.

Mário Crespo

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Analfabeto genial


Erra feio, àqueles (poucos) que apóiam a ação contra o deputado federal Tiririca, na tentativa de impedi-lo de assumir o mandato conquistado, sob argumento de analfabetismo funcional, previsto na Lei Eleitoral.
            A gente precisa evitar um olhar estereotipado, preconceituoso, ou com aquela noção de que político bom e competente é o político apenas alfabetizado (letrado). Afinal, votar o analfabeto pode, mas ser votado não? A lei maior, que é a Constituição, tem uma cláusula pétrea que afirma que todos nós somos iguais perante a lei.
            Agora, o representante do Ministério Público Eleitoral pretende fazer um novo teste com o Tiririca, uma vez já ter provado ser alfabetizado e preencher os requisitos exigidos pelo TRE. Como diz um amigo: “Juro por todos os Orixás que esse promotor gosta dos holofotes da mídia e deveria se ocupar com questões mais relevantes para os cidadãos”. Completo, sem acrobacias verbais: seu raciocínio, com as vênias de estilo, é indigesto ou travesso, ou as duas coisas.
            Não à toa, diriam alguns, que Tiririca seja discípulo de ensinamento irreverente do Chacrinha: “Eu vim pra confundir, não para explicar”. A ousadia dá sempre certo. Como deu. Ele obteve, livre e espontaneamente, 1.300.000 votos. Isso despolitiza qualquer discussão injusta e equivocada. Principalmente, os que gorjeiam soluções capazes de contornar os escândalos de boa parte de nossos parlamentares.
            Há algo de desdém nessa visão. É preciso agir. Não dá mais para repaginar ou colocar curativos nesse tipo de atitude dasafortunada. A meus olhos, sem efeito infringente, pode-se até discordar da votação expressiva (voto de protesto/desencanto) de Tiririca, mas devemos ser justo e aceitar o resultado das urnas, respeitar a democracia e a soberania popular.
            Não sou juiz da consciência alheia, mas só que porta deficiência de visão – e uma boa dose de mediocridade – não consegue vislumbrar o valor da manifestação das urnas. No reverso: aplicar também o teste aos milhares eleitores de Tiririca, sabendo-se que eles podem votar, não teria assim efeito prático: só apontaria mais 1.300.000 analfabetos. Isso sim é quinquilharia pura!
            O grande fascínio da ficção é justamente poder alterar e distorcer a realidade à vontade. Que não é o caso. Tiririca ao questionar: “O que é que faz um deputado federal?”. Em seguida, responde: “Na realidade, eu não sei. Mas vote em mim que eu te conto”. Ora, beira o nonsense simplesmente achar que ele feriu o decoro ou a elegância de nosso Congresso. Não vejo com isso “deboche a democracia”, mas uma declaração de “Simplicidade Franciscano” de quem foi direto ao ponto...  Esse analfabeto é genial!!!

                                                              LINCOLN CARTAXO DE LIRA
                                                                       (lincolnconsultoria@hotmail.com)

sábado, 13 de novembro de 2010

Uma auto-estrada para onde...

Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:
- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta auto-estrada sem ninguém!
Miguel Sousa Tavares

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Consumo contemporâneo


Uma das grandes sacadas motivacionais do consumidor contemporâneo de Shopping Center, não é apenas comprar, mas consumir comunicação, para se mostrar, para encontrar outras pessoas. Essa tese é do italiano Massimo Canevacci, professor de antropologia Cultural da Universidade La Sapienza, de Roma, que considera esse centro de compras como a “fábrica da contemporaneidade”.
            Veja bem: quem de nós já não se deparou com uma desinteressante vitrine de loja, mas que, por trás, encontramos uma lourinha, moreninha, elegante, distinta, expressiva, pronta para lhe atender toda sorridente.  Como diria Tim Maia: “numa relaxe, numa boa”. É regra costumeira: se você não é notado, você não tem nada. Você tem que ser notado!
            O logotipo de algumas empresas está baseado na espiritualização do fetiche. O desafio contemporâneo é justamente subjetivar o produto. A subjetivação, entretanto, é uma “fetichização”. O produto não é mais um produto, mais um ser.
            Um bom exemplo disto foi a Parmalat, que colocou no seio de uma modelo sua logomarca, um tipo “fetichização” mais simples, mas que ao mesmo tempo tem sedução erótica forte.
            Basta dizer, se a sinergia dos olhares for legal, e aí, meu caro leitor, meio caminho andado para o gol de placa, que pode ser uma venda consumada ou início de uma nova amizade ou algo mais íntimo... Dá prá sacar?
            Repare só. Nesse processo de comunicação-consumo rola-se de tudo. Outro dia, eu estava numa loja de artigos esportivos, quando presenciei o seguinte diálogo entre dois jovens:
            -Cara! Essa vendedora faz nossa mão gelar, nossa boca secar e o coração palpitar.
 -É isso. Vamos comprar alguma coisa, e lhe roubar um beijinho ou, quem sabe, um selinho.
Alguns outros entendidos no assunto sentenciam de que o lazer se incorporou de forma tão intensa a esse lugar, que se confunde centro de compras como centro de lazer. Sendo ainda capaz de confrontar angústias e de completar o vazio da vida social dos indivíduos.
Mais uma vez dou meu pitaco: o Shopping é, sim, um fenômeno global, uma tendência fortíssima de contemporaneidade, onde o valor do produto tem uma relação de sensibilidade significante na corporalidade das pessoas. O que leva, por sua vez, uma atração vigorosa ao consumo.
A vida é como circuito elétrico: sempre tem um lado positivo. E, neste caso, o lado positivo é o fascínio dos Shoppings Center.

                                          LINCOLN CARTAXO DE LIRA   
                                                  (lincolnconsultoria@hotmail.com)