“Estudo adverte que o Sul da Península Ibérica irá perder turismo com o aquecimento global no planeta”
Muito do litoral português, como a Costa da Caparica ou a Ria Formosa, irá ficar alagado até 2100. Com temperaturas demasiado quentes no Verão, o Algarve irá perder turismo a favor de destinos no Norte, ficando mais exposto a insectos e pragas infestantes que originam as chamadas doenças dos viajantes. Um estudo sobre os efeitos das alterações climáticas nos destinos ibéricos no final do século XXI, da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril (ESHTE), traça um cenário, no mínimo preocupante. “O estudo serve para alertar que se não se fizer nada para evitar o futuro que está anunciado, há grandes probabilidades deste cenário catastrófico acontecer”, frisa Eunice Gonçalves, presidente do conselho directivo da ESHTE e co-autora do estudo.
As preocupações partem de aumentos de seis graus centigrados até ao final do século, um cenário já referenciado em estudos anteriores. “As temperaturas subirão, e de forma significativa. Os fluxos turísticos do Sul da Península Ibérica irão deslocar-se para o Norte, á procura de temperaturas mais amenas”, adianta Eunice Gonçalves, referindo que o Inverno tende a ser a estação alta do Algarve e Sul de Espanha. “Há um limite para o sol e mar a partir de determinada temperatura, sobretudo com o turismo sênior a ganhar importância”.
Não será a morte do Algarve, “mas o destino tenderá a perder peso no conjunto do país para outros crescerem”. É o caso do Norte, Madeira e Açores. “No Norte da Europa, por exemplo, hoje não há turismo balnear, e com o aumento das temperaturas poderá vir a existir”.
O efeito mais crítico é o da subida média da água do mar. Muitas áreas da costa portuguesa deverão ficar alagadas. Globalmente, o mar subiu 10 a 20 centímetros no século XX, também como conseqüência do degelo dos glaciares. “Em todo o território nacional vai haver um recuo da linha de costa”, avisa a investigadora.
Serra da Estrela emerge para o turismo náutico
Com o aquecimento global, também os destinos de neve da Península Ibérica irão desaparecer enquanto tal, com excepção dos Pirineus. “Esses locais terão de evoluir para outro tipo de produto. Chega a um ponto que é tão caro manter a neve que a própria estância deixa de ser viável”, salienta Eunice Gonçalves. “E já hoje se nota cada vez mais necessidade de recorrer a meios mecânicos, como canhões de neve”. O caso emblemático em Portugal é a serra da Estrela, colocando-se as alternativas ao nível do turismo de natureza e de montanha. “Se a neve derrete, vão criar-se imensos lagos e bolsas de água, que podem ser agradáveis para actividades náuticas”.
Eunice Gonçalves sublinha que há margem de intervenção no sentido de controlar os efeitos anunciados das alterações climáticas. “Este é um exercício que parte da situação actual, projectando-a até o final do século”, explica. A verdade é que o estudo já considera como situação de partida, em 2008, fenômenos como “erosão litoral, cheias, secas, ondas de calor, fogos florestais e desertificação”.
Em 2100
Com o aumento de 6º C até ao fim do século, fluxos turísticos do Sul da Península Ibérica irão deslocar-se para Norte.
O inverno passa a ser a estação alta do Algarve. O Alentejo interior sobe dos actuais 20 a 90 dias de temperaturas máximas de 35º C.
Riscos para a saúde, com o aumento de insectos e espécies infectantes, como as alforrecas.
Norte, Açores e Madeira irão ganhar pelos climas amenos.
Com a neve a derreter, a serra da Estrela irá ganhar bolsas de água, para turismo de natureza.
Recuo da linha de costa em todo o território nacional. Costa da Caparica e Ria Formosa, no Algarve, são algumas áreas que tendem a ficar alagadas.
No enoturismo, a adequação de castas será um imperativo.
‘Conceição Antunes’
Blog de opinião pessoal, critica, independente e rigorosa em termos de analise problematica das questões. Convidados a participar cidadãos com um pensamento livre e descomprometido com obrigações de seguidismo politico, social ou religioso. Aqui, neste espaço, cada um continua a ter as suas opções pessoais, de forma livre. Cada um sabe de si!!!
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
DE ABRAHAM LINCOLN A BARAK OBAMA
Houve dois magricelas de Illinois que mudaram a história do país. Lincoln e Obama, diz John Hetfield, um afro-americano que não esmorece na esperança numa nova era liderada pelo senador do Illinois. Esta associação encerra parte da história da luta pela igualdade de direitos entre pretos e brancos. Datas marcantes do trajecto:
1863
Abraham Lincoln ordena a libertação de todos os escravos nos estados da confederação.
1865
A guerra civil termina e a 13ª emenda que proíbe a escravatura, é aprovada.
1868
A 14ª emenda torna os afro-americnos cidadãos de pleno direito.
1877
Os Estados do Sul recuperam o poder depois da reconstrução e instituem políticas segregacionistas.
1890
Campanha de terror do Klu Klux Klan.
1965
O “Voting Rights Act” torna-se lei e proíbe qualquer imposto ou teste de literacia que impeçam os pretos de votar.
1966
Edward Brook é eleito o primeiro senador afro-americano.
1992
Carol Brown ganha a corrida para o Senado. É a primeira negra a consegui-lo
2008
Barak Obama torna-se o primeiro negro a ser eleito Presidente dos Estados Unidos.
1863
Abraham Lincoln ordena a libertação de todos os escravos nos estados da confederação.
1865
A guerra civil termina e a 13ª emenda que proíbe a escravatura, é aprovada.
1868
A 14ª emenda torna os afro-americnos cidadãos de pleno direito.
1877
Os Estados do Sul recuperam o poder depois da reconstrução e instituem políticas segregacionistas.
1890
Campanha de terror do Klu Klux Klan.
1965
O “Voting Rights Act” torna-se lei e proíbe qualquer imposto ou teste de literacia que impeçam os pretos de votar.
1966
Edward Brook é eleito o primeiro senador afro-americano.
1992
Carol Brown ganha a corrida para o Senado. É a primeira negra a consegui-lo
2008
Barak Obama torna-se o primeiro negro a ser eleito Presidente dos Estados Unidos.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
A RECENTE DISPUTA ELEITORAL NA GUINÉ-BISSAU REPRESENTA UM NOVO GOLPE NA DEMOCRACIA
A eleição de 16 de Novembro na Guiné-Bissau representa uma nova ameaça para os valores democráticos e põe em causa a situação política que já é uma preocupação. Isto porque não houve mudança na configuração interna da sociedade, nos discursos das lideranças dos partidos políticos para ultrapassar as sucessivas crises.
Os partidos políticos não sabem o que fazer. Todos apresentaram candidatos ou coligações para assumir o governo, mas não conseguiram demonstrar para o eleitorado e a sociedade como um todo como pretendem ultrapassar a crise. Não parece que as lideranças políticas estão interessadas em desenvolver mudanças estruturais no país, mas sim interessados a conquistar apenas o poder a todo custo aproveitando-se de espaços na comunicação social para iludir o povo, criar instabilidades e adiar o processo da institucionalização da esfera pública. As denúncias do narcotráfico de Estado dominaram totalmente o debate político-eleitoral, no entanto, até ao momento, não existe nenhuma queixa-crime na Procuradoria-Geral da Republica ou no Supremo Tribunal de Justiça contra as figuras civis e militares envolvidas no crime organizado. Não faltaram indícios.
A recente disputa eleitoral não parece que vai ultrapassar a crise de governabilidade e a ausência da ética na política e na formação de um novo governo. São interesses pessoais, de grupos políticos e partidários que estão em jogo. Uns buscam controlar o aparelho de Estado; já outros são apenas coadjuvantes que reivindicam espaços no governo. Reclamam o direito de voz e vez para definir as políticas e o poder político. Cada um quer a sua parte. Não existe um projeto de Nação, nem negociação e acordos políticos. Quando afirmados são constantemente desrespeitados e negligenciados. O anterior governo de base alargada, todos se recordam, é um bom exemplo da dificuldade que os líderes de partidos políticos têm de incorporar as regras e os valores básicos do pluralismo democrático, tanto dentro dos seus próprios partidos como na suas relações com as organizações da sociedade civil. Os sucessivos governos, mesmos os interinos, não foram capazes de redefinir suas práticas governativas, pondo em risco a governabilidade e a democracia, bem como a adoção de novas alternativas viáveis e consensuais que pudessem facilitar o desenvolvimento sustentável.
À semelhança do que acontece na sociedade política, nas organizações da sociedade civil, cuja visão política é, hoje, na Guiné-Bissau, de uma classe média situada entre uma maioria da população excluída e uma minoria lançando mão dos privilégios que o sistema partidário proporciona, comprometendo a sua automatização na sua relação com o Estado. Não quer dizer que não houve avanços das organizações da sociedade civil nas denúncias da corrupção e do narcotráfico de Estado. É sempre importante denunciar atos de corrupção, no entanto, é preciso ações mais efetivas e concretas por parte dos líderes das organizações da sociedade civil, inclusive nesse momento político pós-eleitoral, já que o sistema partidário mostrou-se incapaz de representar a opinião pública por utilizar a política como moeda de troca.
Outra questão que se coloca é a relação entre civis e militares. A transição guineense para a democracia, por exemplo, ficou conhecido mundialmente pelos sucessivos golpes de Estado. Ela foi incapaz de evitar que o aparato de poder autoritário prosseguisse. Conseqüentemente, os partidos políticos continuam a incentivar intervenções militares em situações de crises, algo quase impossível numa democracia forte em que os generais têm parca capacidade de solapar instituições políticas da República. Nem os quatro Presidentes da República pós-período militar, João Bernardo Vieira, Kumba Yala, Malam Bacai Sanhá e Henrique Rosa conseguiram alterar significativamente a intervenção do poder militar nas questões de competência civil.
Admitindo-se que a recente disputa eleitoral não parece representar uma alternativa viável e rumo a uma democracia consolidada ou em via de consolidação, resta-nos indagar qual será a perspectiva governativa do novo governo saído destas eleições? Não dá, por enquanto, para fazer qualquer pré-visão sobre as recentes eleições. O que podemos dizer é que estamos perante uma situação difícil de estabelecer acordos políticos entre diferentes forças políticas de forma a garantir a governabilidade. Vejamos:
PAIGC
O Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde, que poderia representar uma alternativa governativa, não parece capaz de estabelecer uma aliança política para o enfrentamento de questões urgentes que pudesse refletir na melhoria das condições de vida da população. O PAIGC deixou de representar a vontade coletiva da sociedade guineense há mais de 30 anos. Deixou de ser um partido orgânico. As disputas de poder e interesses difusos fora de controle dos seus líderes acabaram por desviar a atenção do partido na sua relação com a sociedade.
O partido não soube aproveitar o ambiente político favorável proporcionado pela reeleição de Carlos Gomes no VII Congresso. Ao invés de deixar para trás a sua política de “camaradagem” e os erros cometidos no passado, Carlos Gomes preferiu simpatizar-se com o Presidente Vieira cujo passado guerreiro não parece deixar boas lembranças aos guineenses e amigos da Guiné-Bissau. Vieira reclama cada vez mais voz ativa no PAIGC e no governo, e quando não consegue, tenta desarticular a liderança de Carlos Gomes e da classe política, dissolvendo o Parlamento ou mantendo uma parte dele em função como forma de atingir seus objetivos de permanecer no poder.
PRS
O Partido da Renovação Social, a segunda maior força política do país, também não parece representar alternativa por não ter conseguido renovar o seu discurso. O PRS é um partido com alto grau de tendências internas e inclinações étnicas e regionais sem um projeto político claro. Parece mais interessado em desenvolver uma política de intimidação e ameaças, prática típica do seu líder. Não parece interessado em estabelecer uma política de aliança ou coligação governativa sustentável com o governo que sairá das eleições.
PRID
O Partido Republicano para a Independência e Desenvolvimento, recentemente criado, ao comprar a consciência do eleitorado com recursos oriundos do narcotráfico e crime organizado importa apenas garantir o poder da cúpula no governo e interesses pessoais do presidente João Bernardo Vieira. O presidente investiu financeira e politicamente e incentivou a criação do PRID, o que garantiu ao partido um número significativo de eleitorado e votos, se considerarmos a data da sua fundação. Com base nesse apoio, o presidente Vieira conseguiu inibir, em parte, a oposição interna dentro do PAIGC e do PRS que foi tão clara e perigosa para a manutenção do seu status quo. Se levarmos em conta que a sua relação com o atual presidente do PAIGC se assenta na disputa de espaços e poder, e considerando que a sua hegemonia no partido está minado, o presidente Vieira preferiu agir com pragmatismo, e quem sabe, mais adiante, dependendo do desempenho eleitoral do PRID, neste pleito, o presidente Viera terá uma porta aberta para sua manutenção no poder por mais quatro anos sem necessariamente precisar do apoio do PRS.
O que importa para o presidente Vieira é manter o seu status político herdado na luta de libertação nacional. Agora ele pode contar com apoio e confiança do PRID para manter a “governabilidade” e inibir o perigo do PRS na casa legislativa. Quem mais perdeu, nesta disputa eleitoral é Carlos Gomes Júnior que terá que sentar-se à mesa com o seu grande adversário político, Aristides Gomes, líder do PRID, que sempre reclamou possuir o apoio incondicional de Vieira durante a campanha eleitora.
Ao invés de se posicionar, o presidente Vieira preferiu adotar uma política de não enfrentamento. Mas o presidente Viera terá de decidir publicamente: que interesse político ele representará, ou terá que arcar com o descontentamento do PAIGC, que não gostou do fato de não poder utilizar a sua imagem durante a campanha eleitoral. Na hora certa, Vieira irá posicionar-se para tentar recompor as forças dentro do próprio PAIGC em benefício do PRID e interesse político próprio. Em torno de tudo isso, uma constatação: a recente disputa eleitoral na Guiné-Bissau representa mais um golpe na nossa democracia devido à ausência de um projeto político claro e coeso que possa redefinir o rumo do país e garantir a governabilidade.
Ricardino J. D. Teixeira - Mestre em Sociologia Política pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor de sociologia na Faculdade de Ipojuca - Brasil
Visionado em: www.didinho.org
Os partidos políticos não sabem o que fazer. Todos apresentaram candidatos ou coligações para assumir o governo, mas não conseguiram demonstrar para o eleitorado e a sociedade como um todo como pretendem ultrapassar a crise. Não parece que as lideranças políticas estão interessadas em desenvolver mudanças estruturais no país, mas sim interessados a conquistar apenas o poder a todo custo aproveitando-se de espaços na comunicação social para iludir o povo, criar instabilidades e adiar o processo da institucionalização da esfera pública. As denúncias do narcotráfico de Estado dominaram totalmente o debate político-eleitoral, no entanto, até ao momento, não existe nenhuma queixa-crime na Procuradoria-Geral da Republica ou no Supremo Tribunal de Justiça contra as figuras civis e militares envolvidas no crime organizado. Não faltaram indícios.
A recente disputa eleitoral não parece que vai ultrapassar a crise de governabilidade e a ausência da ética na política e na formação de um novo governo. São interesses pessoais, de grupos políticos e partidários que estão em jogo. Uns buscam controlar o aparelho de Estado; já outros são apenas coadjuvantes que reivindicam espaços no governo. Reclamam o direito de voz e vez para definir as políticas e o poder político. Cada um quer a sua parte. Não existe um projeto de Nação, nem negociação e acordos políticos. Quando afirmados são constantemente desrespeitados e negligenciados. O anterior governo de base alargada, todos se recordam, é um bom exemplo da dificuldade que os líderes de partidos políticos têm de incorporar as regras e os valores básicos do pluralismo democrático, tanto dentro dos seus próprios partidos como na suas relações com as organizações da sociedade civil. Os sucessivos governos, mesmos os interinos, não foram capazes de redefinir suas práticas governativas, pondo em risco a governabilidade e a democracia, bem como a adoção de novas alternativas viáveis e consensuais que pudessem facilitar o desenvolvimento sustentável.
À semelhança do que acontece na sociedade política, nas organizações da sociedade civil, cuja visão política é, hoje, na Guiné-Bissau, de uma classe média situada entre uma maioria da população excluída e uma minoria lançando mão dos privilégios que o sistema partidário proporciona, comprometendo a sua automatização na sua relação com o Estado. Não quer dizer que não houve avanços das organizações da sociedade civil nas denúncias da corrupção e do narcotráfico de Estado. É sempre importante denunciar atos de corrupção, no entanto, é preciso ações mais efetivas e concretas por parte dos líderes das organizações da sociedade civil, inclusive nesse momento político pós-eleitoral, já que o sistema partidário mostrou-se incapaz de representar a opinião pública por utilizar a política como moeda de troca.
Outra questão que se coloca é a relação entre civis e militares. A transição guineense para a democracia, por exemplo, ficou conhecido mundialmente pelos sucessivos golpes de Estado. Ela foi incapaz de evitar que o aparato de poder autoritário prosseguisse. Conseqüentemente, os partidos políticos continuam a incentivar intervenções militares em situações de crises, algo quase impossível numa democracia forte em que os generais têm parca capacidade de solapar instituições políticas da República. Nem os quatro Presidentes da República pós-período militar, João Bernardo Vieira, Kumba Yala, Malam Bacai Sanhá e Henrique Rosa conseguiram alterar significativamente a intervenção do poder militar nas questões de competência civil.
Admitindo-se que a recente disputa eleitoral não parece representar uma alternativa viável e rumo a uma democracia consolidada ou em via de consolidação, resta-nos indagar qual será a perspectiva governativa do novo governo saído destas eleições? Não dá, por enquanto, para fazer qualquer pré-visão sobre as recentes eleições. O que podemos dizer é que estamos perante uma situação difícil de estabelecer acordos políticos entre diferentes forças políticas de forma a garantir a governabilidade. Vejamos:
PAIGC
O Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde, que poderia representar uma alternativa governativa, não parece capaz de estabelecer uma aliança política para o enfrentamento de questões urgentes que pudesse refletir na melhoria das condições de vida da população. O PAIGC deixou de representar a vontade coletiva da sociedade guineense há mais de 30 anos. Deixou de ser um partido orgânico. As disputas de poder e interesses difusos fora de controle dos seus líderes acabaram por desviar a atenção do partido na sua relação com a sociedade.
O partido não soube aproveitar o ambiente político favorável proporcionado pela reeleição de Carlos Gomes no VII Congresso. Ao invés de deixar para trás a sua política de “camaradagem” e os erros cometidos no passado, Carlos Gomes preferiu simpatizar-se com o Presidente Vieira cujo passado guerreiro não parece deixar boas lembranças aos guineenses e amigos da Guiné-Bissau. Vieira reclama cada vez mais voz ativa no PAIGC e no governo, e quando não consegue, tenta desarticular a liderança de Carlos Gomes e da classe política, dissolvendo o Parlamento ou mantendo uma parte dele em função como forma de atingir seus objetivos de permanecer no poder.
PRS
O Partido da Renovação Social, a segunda maior força política do país, também não parece representar alternativa por não ter conseguido renovar o seu discurso. O PRS é um partido com alto grau de tendências internas e inclinações étnicas e regionais sem um projeto político claro. Parece mais interessado em desenvolver uma política de intimidação e ameaças, prática típica do seu líder. Não parece interessado em estabelecer uma política de aliança ou coligação governativa sustentável com o governo que sairá das eleições.
PRID
O Partido Republicano para a Independência e Desenvolvimento, recentemente criado, ao comprar a consciência do eleitorado com recursos oriundos do narcotráfico e crime organizado importa apenas garantir o poder da cúpula no governo e interesses pessoais do presidente João Bernardo Vieira. O presidente investiu financeira e politicamente e incentivou a criação do PRID, o que garantiu ao partido um número significativo de eleitorado e votos, se considerarmos a data da sua fundação. Com base nesse apoio, o presidente Vieira conseguiu inibir, em parte, a oposição interna dentro do PAIGC e do PRS que foi tão clara e perigosa para a manutenção do seu status quo. Se levarmos em conta que a sua relação com o atual presidente do PAIGC se assenta na disputa de espaços e poder, e considerando que a sua hegemonia no partido está minado, o presidente Vieira preferiu agir com pragmatismo, e quem sabe, mais adiante, dependendo do desempenho eleitoral do PRID, neste pleito, o presidente Viera terá uma porta aberta para sua manutenção no poder por mais quatro anos sem necessariamente precisar do apoio do PRS.
O que importa para o presidente Vieira é manter o seu status político herdado na luta de libertação nacional. Agora ele pode contar com apoio e confiança do PRID para manter a “governabilidade” e inibir o perigo do PRS na casa legislativa. Quem mais perdeu, nesta disputa eleitoral é Carlos Gomes Júnior que terá que sentar-se à mesa com o seu grande adversário político, Aristides Gomes, líder do PRID, que sempre reclamou possuir o apoio incondicional de Vieira durante a campanha eleitora.
Ao invés de se posicionar, o presidente Vieira preferiu adotar uma política de não enfrentamento. Mas o presidente Viera terá de decidir publicamente: que interesse político ele representará, ou terá que arcar com o descontentamento do PAIGC, que não gostou do fato de não poder utilizar a sua imagem durante a campanha eleitoral. Na hora certa, Vieira irá posicionar-se para tentar recompor as forças dentro do próprio PAIGC em benefício do PRID e interesse político próprio. Em torno de tudo isso, uma constatação: a recente disputa eleitoral na Guiné-Bissau representa mais um golpe na nossa democracia devido à ausência de um projeto político claro e coeso que possa redefinir o rumo do país e garantir a governabilidade.
Ricardino J. D. Teixeira - Mestre em Sociologia Política pela Universidade Federal de Pernambuco. Professor de sociologia na Faculdade de Ipojuca - Brasil
Visionado em: www.didinho.org
domingo, 26 de outubro de 2008
A NOVA ESPÉCIE
Confidenciava-me há poucas semanas um amigo que os homens de hoje em dia também já têm dores de cabeça. Segundo ele, reina entre os casais uma preocupante ausência de desejo sexual, o qual também se manifesta nos homens.
É sabido que as mulheres são exímias em enumerar razões para não ter sexo: cansaço, sobrecarga doméstica, filhos, falta de auto-estima, medo do espelho, tensão pré-_-menstrual, depilação por fazer, resquícios de uma discussão, sono, falta de dinheiro, entre tantas outras. O dado novo é que os homens também passam pelo mesmo, ou seja, entre ter sexo aborrecido e rotineiro ou não ter, alguns preferem ficar a ver o futebol e a beber cervejas aconchegadas com uma reconfortante pratada de tremoços, o que me faz pôr em causa a clássica máxima muito popular nos anos 80, divulgada em canecas e t-shirts, que proclamava ‘sex is like pizza, when it’s good it’s very good, when it’s bad, it’s still good’.
O sexo mecânico, que eu pensava não ser bom para as mulheres mas ainda assim satisfazer os homens, afinal pode não ser considerado uma opção.
Esta INFORMAÇÃO leva-me para o território do sim e do não que pelos vistos se arruma agora de forma diferente. Aos homens sempre calhou o ónus de aguentar com a recusa das mulheres e estão habituados a encarar o cenário negativo com fair-play e descontracção. Um não é o prato do dia; o sim é muitas vezes um bónus.
Com as mulheres é ao contrário: habituadas ao luxo de dizer sim ou não conforme lhes apetece, quando são confrontadas com uma recusa, tomam-na como uma ofensa pessoal e o mundo pode desabar. Não conseguem perceber que uma recusa pontual não representa automaticamente um acto de rejeição. Como é próprio do modus operandi feminino, tendem a interpretar e reinterpretar todo e qualquer gesto, atribuindo-lhe os mais variados significados baseados mais na fantasia e na insegurança do que em qualquer dado real.
Acredito que aos homens também assiste o direito de dizer não, tal como tantas vezes as mulheres o fazem. Afinal, se andamos cá há tantos anos a lutar pela igualdade, nós, as mulheres, temos a obrigação de assumir com humildade que o outro também tem o direito a dores de cabeça, sejam elas verdadeiras ou ilusórias. A libido tem vida própria, tal como o amor e o desejo, é por isso um acto de uma enorme ingenuidade tentar forçá-la. Num mundo em que os homens se vão parecendo cada vez mais com as mulheres, é apenas natural que também eles tenham os seus dias não, mesmo sem tensão pré-menstrual ou sintomas de menopausa.
Não esqueçamos que esta nova espécie também tem outras qualidades; usa perfume e bons cremes para a pele e vai de boa vontade à faca operar o nariz para nos deixar dormir em paz sem banda sonora. Além disso, o clássico homem feio, porco e mau e a cheirar a cavalo raramente conhece as subtilezas do bom sexo e nem sequer se preocupa se a parceira atinge o nirvana ou está a pensar que precisa de mudar o verniz das unhas.
'Margarida Rebelo Pinto'
É sabido que as mulheres são exímias em enumerar razões para não ter sexo: cansaço, sobrecarga doméstica, filhos, falta de auto-estima, medo do espelho, tensão pré-_-menstrual, depilação por fazer, resquícios de uma discussão, sono, falta de dinheiro, entre tantas outras. O dado novo é que os homens também passam pelo mesmo, ou seja, entre ter sexo aborrecido e rotineiro ou não ter, alguns preferem ficar a ver o futebol e a beber cervejas aconchegadas com uma reconfortante pratada de tremoços, o que me faz pôr em causa a clássica máxima muito popular nos anos 80, divulgada em canecas e t-shirts, que proclamava ‘sex is like pizza, when it’s good it’s very good, when it’s bad, it’s still good’.
O sexo mecânico, que eu pensava não ser bom para as mulheres mas ainda assim satisfazer os homens, afinal pode não ser considerado uma opção.
Esta INFORMAÇÃO leva-me para o território do sim e do não que pelos vistos se arruma agora de forma diferente. Aos homens sempre calhou o ónus de aguentar com a recusa das mulheres e estão habituados a encarar o cenário negativo com fair-play e descontracção. Um não é o prato do dia; o sim é muitas vezes um bónus.
Com as mulheres é ao contrário: habituadas ao luxo de dizer sim ou não conforme lhes apetece, quando são confrontadas com uma recusa, tomam-na como uma ofensa pessoal e o mundo pode desabar. Não conseguem perceber que uma recusa pontual não representa automaticamente um acto de rejeição. Como é próprio do modus operandi feminino, tendem a interpretar e reinterpretar todo e qualquer gesto, atribuindo-lhe os mais variados significados baseados mais na fantasia e na insegurança do que em qualquer dado real.
Acredito que aos homens também assiste o direito de dizer não, tal como tantas vezes as mulheres o fazem. Afinal, se andamos cá há tantos anos a lutar pela igualdade, nós, as mulheres, temos a obrigação de assumir com humildade que o outro também tem o direito a dores de cabeça, sejam elas verdadeiras ou ilusórias. A libido tem vida própria, tal como o amor e o desejo, é por isso um acto de uma enorme ingenuidade tentar forçá-la. Num mundo em que os homens se vão parecendo cada vez mais com as mulheres, é apenas natural que também eles tenham os seus dias não, mesmo sem tensão pré-menstrual ou sintomas de menopausa.
Não esqueçamos que esta nova espécie também tem outras qualidades; usa perfume e bons cremes para a pele e vai de boa vontade à faca operar o nariz para nos deixar dormir em paz sem banda sonora. Além disso, o clássico homem feio, porco e mau e a cheirar a cavalo raramente conhece as subtilezas do bom sexo e nem sequer se preocupa se a parceira atinge o nirvana ou está a pensar que precisa de mudar o verniz das unhas.
'Margarida Rebelo Pinto'
sábado, 18 de outubro de 2008
Viva a crise!
A crise é má. Todos a vamos pagar. Mas poderá ser boa. Se descongelar algumas ideias políticas que estavam há muito no frigorífico, se enterrar durante algum tempo as ideias de Milton Friedman que iluminaram a classe política nas últimas três décadas. Friedman, guru da escola de Chicago, considerava que só o dinheiro interessava. A partir daí confundiu-se a economia com os ciclos financeiros típicos da economia de mercado.
Todos os outros aspectos da economia (a agrícola, a humana, a laboral, a ambiental – todas fazem parte do eco-sistema a que se chama "economia") foram esquecidos. A ideologia hegemónica cristalizou-se, como se os fluxos financeiros fossem o coração e a alma do mundo. Não são. Esta crise pode incentivar uma nova ruptura criativa na economia, afastando as ervas daninhas que tiravam o sangue ao mercado. O Carnaval financeiro está a acabar e as máscaras estão a ser vendidas em saldo. Não é preciso citar Adam Smith para se chegar à conclusão que o saneamento do sistema bancário e o controle do défice público são medidas essenciais para garantir a saúde económica do Estado moderno. Por aqui imaginava-se que a crise financeira tirasse alguns políticos do seu estado letárgico. Não é o caso. Em Portugal tudo pode ser motivo de debates "fracturantes", menos o que interessa neste momento: a economia real dos portugueses. É nestes momentos que se vê o défice global da classe política nacional. Discute o acessório, esquece o essencial. A crise há-de bater-lhes à porta.
Fernando Sobral
Todos os outros aspectos da economia (a agrícola, a humana, a laboral, a ambiental – todas fazem parte do eco-sistema a que se chama "economia") foram esquecidos. A ideologia hegemónica cristalizou-se, como se os fluxos financeiros fossem o coração e a alma do mundo. Não são. Esta crise pode incentivar uma nova ruptura criativa na economia, afastando as ervas daninhas que tiravam o sangue ao mercado. O Carnaval financeiro está a acabar e as máscaras estão a ser vendidas em saldo. Não é preciso citar Adam Smith para se chegar à conclusão que o saneamento do sistema bancário e o controle do défice público são medidas essenciais para garantir a saúde económica do Estado moderno. Por aqui imaginava-se que a crise financeira tirasse alguns políticos do seu estado letárgico. Não é o caso. Em Portugal tudo pode ser motivo de debates "fracturantes", menos o que interessa neste momento: a economia real dos portugueses. É nestes momentos que se vê o défice global da classe política nacional. Discute o acessório, esquece o essencial. A crise há-de bater-lhes à porta.
Fernando Sobral
TRICHET, CASINHAS DA CÂMARA, CRISE E UM MINISTRO SUICIDADO
Crise: Desvendar o mistério Trichet. A Euribor foi abaixo mas as taxas de juro subiram (e só deram sinais de descer depois das intervenções simultâneas de quase todos os governos da EU). Trichet é, portanto, o sr. “mal-entendido” que tarde e a más horas, decidiu… Resultado: ninguém o seguiu. Antes e depois, ele estava “certo”... Consumidores, famílias e empresas é que não o entendiam e estavam “errados”… Viu-se! E ainda não se demitiu...?!
Ler os jornais, nestes dias da grande crise, serve sobretudo para vermos como mais de 95 por cento dos opinion-makers não percebe nada do que se está a passar… E não consegue escondê-lo. Parece aquela estória dos cegos à volta de um elefante a tentarem adivinhar que coisa será pela impressão recolhida do sítio em que lhe tocam...
José Mateus Cavaco Silva
O caso das casinhas da Câmara mostra bem um dos mais tristes (e só aparentemente paradoxal) aspectos do Portugal pós-Abril: a “união de facto” (ainda não tanto o casamento gay...) das nomenklaturas comunistas e aparentadas locais com o “complexo salazarento e neo-corporativo”. Bem instalada nestas ricas casinhas e bem abrigada atrás de um discurso de “superioridade moral”, esta “união de facto” vai próspera, feliz e fazendo muitos meninos. Este conúbio só aparentemente é insólito porque, realmente, “o que os une (a dependência das tetas do Estado) é muito mais forte que o que os separa (as simpatias pela esquerda totalitária ou pela direita totalitária)”… E todos berram contra o liberalismo, essa coisa que, claro, seria pôr as casinhas da Câmara no mercado (de arrendamento, o tal que Salazar liquidou e ninguém quer ressuscitar), entregando-as a quem as pagasse pelo seu valor (resolvendo-se, assim e de caminho, também o défice crónico, agudo e grave da CML. Compreende-se… Tudo se compreende. Tal como se compreende que um dia (como a história do sítio bem ilustra) a coisa acaba mal... Até lá, vão vivendo à conta e bordando belos discursos com os resíduos da “superioridade moral” de comunistas e fascistas.
As Finanças andam a confundir o dispositivo militar com a Função Pública e aplicar-lhe as mesmas regras. Há outras maneiras de dizer isto: confundir o rabo com as calças ou, melhor ainda, comparar o cu com a feira de Castro... Leia-se o texto de Helena Pereira no “Sol” de 11 deste mês e fica-se esclarecido sobre a dimensão do enorme mal-entendido. Mas se as Finanças cometem o típico erro do tecnocrata pouco atento ao valor real e ao peso e densidade de certos “imateriais” (como “a soberania” ou “o moral”) e pouco entendido nos determinantes da geopolítica e suas implicações fatais, já o ministro da Defesa comete suicídio. Porque, a ser verdade o que o “Sol” relata, isto é o suicídio político de Severiano Teixeira… O ministro da Defesa foi apagado deste quadro. Assim, os militares percebem que não podem contar com ele. E a partir daí, o ministro não conta no campeonato. É claro… Se ele deixar que isto aconteça, realmente. Se a norma diz que poucos sobrevivem politicamente ao exercício do cargo de ministro da Defesa (façam a lista a dos ministros dos últimos trinta anos e vejam...), a agir assim então é “morte” certa antes ainda do fim do exercício.
Ler os jornais, nestes dias da grande crise, serve sobretudo para vermos como mais de 95 por cento dos opinion-makers não percebe nada do que se está a passar… E não consegue escondê-lo. Parece aquela estória dos cegos à volta de um elefante a tentarem adivinhar que coisa será pela impressão recolhida do sítio em que lhe tocam...
José Mateus Cavaco Silva
O caso das casinhas da Câmara mostra bem um dos mais tristes (e só aparentemente paradoxal) aspectos do Portugal pós-Abril: a “união de facto” (ainda não tanto o casamento gay...) das nomenklaturas comunistas e aparentadas locais com o “complexo salazarento e neo-corporativo”. Bem instalada nestas ricas casinhas e bem abrigada atrás de um discurso de “superioridade moral”, esta “união de facto” vai próspera, feliz e fazendo muitos meninos. Este conúbio só aparentemente é insólito porque, realmente, “o que os une (a dependência das tetas do Estado) é muito mais forte que o que os separa (as simpatias pela esquerda totalitária ou pela direita totalitária)”… E todos berram contra o liberalismo, essa coisa que, claro, seria pôr as casinhas da Câmara no mercado (de arrendamento, o tal que Salazar liquidou e ninguém quer ressuscitar), entregando-as a quem as pagasse pelo seu valor (resolvendo-se, assim e de caminho, também o défice crónico, agudo e grave da CML. Compreende-se… Tudo se compreende. Tal como se compreende que um dia (como a história do sítio bem ilustra) a coisa acaba mal... Até lá, vão vivendo à conta e bordando belos discursos com os resíduos da “superioridade moral” de comunistas e fascistas.
As Finanças andam a confundir o dispositivo militar com a Função Pública e aplicar-lhe as mesmas regras. Há outras maneiras de dizer isto: confundir o rabo com as calças ou, melhor ainda, comparar o cu com a feira de Castro... Leia-se o texto de Helena Pereira no “Sol” de 11 deste mês e fica-se esclarecido sobre a dimensão do enorme mal-entendido. Mas se as Finanças cometem o típico erro do tecnocrata pouco atento ao valor real e ao peso e densidade de certos “imateriais” (como “a soberania” ou “o moral”) e pouco entendido nos determinantes da geopolítica e suas implicações fatais, já o ministro da Defesa comete suicídio. Porque, a ser verdade o que o “Sol” relata, isto é o suicídio político de Severiano Teixeira… O ministro da Defesa foi apagado deste quadro. Assim, os militares percebem que não podem contar com ele. E a partir daí, o ministro não conta no campeonato. É claro… Se ele deixar que isto aconteça, realmente. Se a norma diz que poucos sobrevivem politicamente ao exercício do cargo de ministro da Defesa (façam a lista a dos ministros dos últimos trinta anos e vejam...), a agir assim então é “morte” certa antes ainda do fim do exercício.
Desertores
Terceira classe de Desertores, aquela que Pacheco Pereira fala, e que tentava incluir num “bolo” único. Esta classe era constituída pela parte da população que beneficiava directamente do status-quo do Estado Novo, privilegiada, rica e instruída, vivia num outro Portugal, bem "longe" do estado de indigência em que se encontrava a maioria da população.
Estes Portugueses tinham um bom nível de vida, mesmo para os padrões actuais.
Estes recusaram defender a pátria que tanto os beneficiava e preferiram partir, financiados, a maioria pelos dinheiros dos seus papás. E o seu “exílio” foi bastante dourado.
Nessa altura Paris devia ser uma cidade espectacular para quem tinha duas coisas, Dinheiro e tempo Livre. Mesmo para aqueles cuja mesada paternal não chegava para os copos do Quartier Latin e Montparnasse, podiam arranjar facilmente um empregozeco relativamente bem pago. Esta classe de desertores nunca pôs o pé nos Bidonville, onde a primeira classe de "desertores" vivia, até podemos dizer que raramente saiu dos limites da cité, dos seus cafés e livrarias.
Não quero que pensem que estou aqui a dar lições de moral a estes senhores. Não dou, porque sou de uma outra geração. Geração que nunca foi posta perante o dilema de ter que defender a sua pátria lutando. Se vivesse nesses tempos, não poderia dizer, hoje em dia, qual a opção que teria tomado.
Mas estes desertores não contentes com o que fizeram, voltaram logo a seguir ao 25 de Abril para Portugal e foram-se colocar em Alcântara a chamar de “assassinos” aos Portugueses que combateram em África. Mais tarde o acto de cobardia serviu de “medalha” para se introduzirem na classe politica dirigente, onde ainda se encontram. Aí difundiram a sua cultura de exigir direitos recusando-se a cumprir qualquer dever, cultura essa que hoje está completamente arreigada na Sociedade Portuguesa.
Mas não se ficaram por aí!
Tiveram até a desfaçatez de Auto-atribuir-se pensões por “feitos relevantes na luta Anti-fascista”.
Estes cobardolas apenas são merecedores do meu mais profundo desprezo.
Nada lhes devo.
Se houve 25 de Abril, se hoje vivemos em Democracia e se a minha geração nunca se confrontou com o dilema de combater ou não combater, são coisas que devo a todos os Portugueses que foram mobilizados para a guerra do Ultramar, sobretudo aqueles que nunca voltaram.
Esses é que são os verdadeiros Heróis.
Esses é que foram os que se sacrificaram.
Esses foram aqueles que todos os dias, durante dois anos ao acordar, não sabiam se iria ser a última vez.
Esses são aqueles que hoje estão votados ao esquecimento.
Esses são aqueles que a classe política, saída do 25 de Abril, nunca teve a honra nem a dignidade de lhes agradecer.
A todos os que foram mobilizados, o meus sinceros agradecimentos.
Aos filhinhos do Papá e da Mamã, que prestaram a sua comissão nos bares do Quartier Latin.
BADAMERDA!
Luís Bonifácio
Estes Portugueses tinham um bom nível de vida, mesmo para os padrões actuais.
Estes recusaram defender a pátria que tanto os beneficiava e preferiram partir, financiados, a maioria pelos dinheiros dos seus papás. E o seu “exílio” foi bastante dourado.
Nessa altura Paris devia ser uma cidade espectacular para quem tinha duas coisas, Dinheiro e tempo Livre. Mesmo para aqueles cuja mesada paternal não chegava para os copos do Quartier Latin e Montparnasse, podiam arranjar facilmente um empregozeco relativamente bem pago. Esta classe de desertores nunca pôs o pé nos Bidonville, onde a primeira classe de "desertores" vivia, até podemos dizer que raramente saiu dos limites da cité, dos seus cafés e livrarias.
Não quero que pensem que estou aqui a dar lições de moral a estes senhores. Não dou, porque sou de uma outra geração. Geração que nunca foi posta perante o dilema de ter que defender a sua pátria lutando. Se vivesse nesses tempos, não poderia dizer, hoje em dia, qual a opção que teria tomado.
Mas estes desertores não contentes com o que fizeram, voltaram logo a seguir ao 25 de Abril para Portugal e foram-se colocar em Alcântara a chamar de “assassinos” aos Portugueses que combateram em África. Mais tarde o acto de cobardia serviu de “medalha” para se introduzirem na classe politica dirigente, onde ainda se encontram. Aí difundiram a sua cultura de exigir direitos recusando-se a cumprir qualquer dever, cultura essa que hoje está completamente arreigada na Sociedade Portuguesa.
Mas não se ficaram por aí!
Tiveram até a desfaçatez de Auto-atribuir-se pensões por “feitos relevantes na luta Anti-fascista”.
Estes cobardolas apenas são merecedores do meu mais profundo desprezo.
Nada lhes devo.
Se houve 25 de Abril, se hoje vivemos em Democracia e se a minha geração nunca se confrontou com o dilema de combater ou não combater, são coisas que devo a todos os Portugueses que foram mobilizados para a guerra do Ultramar, sobretudo aqueles que nunca voltaram.
Esses é que são os verdadeiros Heróis.
Esses é que foram os que se sacrificaram.
Esses foram aqueles que todos os dias, durante dois anos ao acordar, não sabiam se iria ser a última vez.
Esses são aqueles que hoje estão votados ao esquecimento.
Esses são aqueles que a classe política, saída do 25 de Abril, nunca teve a honra nem a dignidade de lhes agradecer.
A todos os que foram mobilizados, o meus sinceros agradecimentos.
Aos filhinhos do Papá e da Mamã, que prestaram a sua comissão nos bares do Quartier Latin.
BADAMERDA!
Luís Bonifácio
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